Na noite de terça-feira, 10 de dezembro, chegou a vez do Ensino Médio e do High School se despedirem do Colégio Uirapuru. Os participantes do Programa de High School Uirapuru receberam também o certificado americano, reconhecido pela University of Missouri. Em um clima alegre e emocionante, famílias fizeram uma grande festa para celebrar mais essa etapa. O paraninfo da turma, Prof. Eduardo Torres, leu uma carta emocionante em que contou um pouco sobre sua vivência e falou aos corações de todos os presentes, em especial aos alunos. Para entender o quanto foi marcante o Encerramento do Ensino Médio, fica registrado aqui o discurso realizado pelo paraninfo da turma. 

 

"Senhor diretor, senhora coordenadora geral, senhora coordenadora do Ensino Médio, pais, mães, professores, prezados todos. Queridos alunos. Prestem atenção.

 Tudo tem seu tempo e sua hora, garante a antiga palavra de Eclesiastes. A hora da sua formatura, desde os tenros olhares infantis, custou a chegar. Mas hoje estamos aqui, celebrando.

Foi no tempo preciso, depois de construir uma bela história. Hoje, vocês são o fruto amadurecido, que enverga o galho, desta primeira etapa formativa, a mais humana, a mais delicada, a mais frágil.

Vocês elegeram um chileno para realizar este discurso, algo que à luz dos acontecimentos que se suscitam no meu país pode ser, no mínimo, incendiário. 

No entanto, nasci em terra de poetas e o que hoje direi a vocês não cheira fumaça, pneu queimado ou bomba lacrimogênea. É simplesmente um outro tipo de manifestação, um ato de agradecimento, uma declaração de amor.

Sou professor e Ser professor – me valendo das palavras do meu orientador e suas metáforas – é uma aposta no futuro, educamos no presente para o futuro. Somos movidos por esperança e por acreditar que vem algo melhor. Persistimos na vontade de que o futuro seja de conhecimento e reconhecimento; de liberdade e democracia; de racionalidade e de igualdade.

Ser professor é acreditar que aquele ser humano que está diante de nós, sem ser uma tábula rasa, não sabe o que eu sei, muitas vezes sem estabilidade pessoal para saber o que pode saber, e nós com cuidado e carinho, regamos permanentemente essa semente até fazermos germinar um novo ser humano, que surgirá deste esforço e desta dedicação.

Nós professores somos especialistas em bonsai, nunca em agronegócio, sempre dedicados ao individuo, ao sujeito que a cada dia temos à nossa frente: cada um com dores, penas, alegrias, com uma história que deve ser respeitada e compreendida.

Ser professor é acreditar que nesses encontros diários, semanais, somos capazes de iluminar ou pelo menos acender uma luz no interior de cada aluno, para assim construir uma sociedade mais cidadã e menos preconceituosa.

Mas, devemos ser prudentes e saber que as transformações que queremos para nossa comunidade, para nosso país, deveriam tomar Mahatma Gandhi como conselheiro, quem disse: eu devo ser a transformação que quero ser no mundo, eu devo ser a transformação que eu desejo ver no mundo.

Nós não temos o poder de transformar o país inteiro ou a sociedade inteira para o que eu desejo, mas posso com meus atos, com minhas palavras e atitudes fazer a diferença em uma sala de aula, posso tornar esse espaço menos preconceituoso, mais cidadão, mais democrático, mais pluralista, onde o senso comum pode ser contrastado com conhecimentos práticos e técnicos que mostram diferentes parâmetros.

Nossa profissão é fascinante, pois, trabalhamos com jovens, ávidos de saber, de conhecimentos, sempre atentos à descoberta e onde eu sei que minha responsabilidade é passar o que eu conheço, porque se isso não acontecer, talvez nunca mais haja a possibilidade de que esses jovens, estes jovens vejam o que perderam. Como dizia Paulo Freire, professores bons marcam a vida de um aluno, mas professores ruins, também.

Hoje aqui, nós, seus professores, depositamos em vocês a confiança de transformar este país, pois nestes 12 anos de dedicação, o que fizemos - parafraseando o professor da UNICAMP Rubem Alves - foi plantar carvalhos, não eucaliptos.

Meus alunos. Nestes 12 anos, desde o Ensino Fundamental, eu gostaria de prestar uma aberta homenagem a quem os alfabetizou, àquelas professoras, principalmente, que tomaram seus dedinhos, segurando um lápis e que com profundo amor, afeto e carinho, guiaram suas primeiras curvas formando as primeiras vogais.

Esse primeiro contato foi, talvez, uma experiência quase xamânica que deu início ao processo de descobertas e ideais que estava dentro de cada um, transformando-os para todo sempre, e para muito melhor. Esses professores alfabetizadores foram os primeiros gigantes que ofereceram seus ombros, para que vocês subissem e olhassem cada vez mais longe.

Eu os conheci no Ensino Médio, no segundo ano para ser mais preciso, e já nesse primeiro momento notei que a grande maioria de vocês estavam feitos do mesmo material dos sonhos e estavam rodeados de sonhos. Hoje, ao final desta viagem, posso afirmar que todos estão feitos e estão rodeados destes sonhos, motores desse porvir.

No entanto, não se confundam, sonhar às vezes custa caro, e não é necessariamente um projeto de felicidade assegurado. Se eu pudesse desejar algo para vocês, certamente não seria o fardo que a procura da felicidade implica, não diria para vocês “sejam felizes”. Diria e desejaria de coração aberto que possam encontrar o sentido da vida. Que viver tenha um motivo e uma razão.  Esse seria meu desejo.

Esta noite quem está diante de vocês não é só o professor Eduardo, é a minha história, é minha mãe Ana, é minha avó Luisa, sou Catalina e Isabel, sou meu pai Eduardo e meu avô Sergio, sou Juan e sou José. Sou neto de um mineiro do salitre, que trabalhou longas décadas com as costas voltadas ao sol escaldante do deserto de Atacama; Sou neto, também, de um operário industrial, que trabalhou até se aposentar em uma fábrica de cimentos, encarregado dos fornos que queimavam além dos 1000 graus Celsius.

Os dois a sua maneira, vivendo um inferno particular, pois havia que comer, havia que viver.

 Minhas avós não tiveram uma vida mais fácil ou com menos preocupações, tinham que cuidar das suas crianças e fazer uso da imaginação com os escassos recursos disponíveis.

Quem está aqui, também, diante de vocês e através de mim, é todo o corpo docente que contribuiu para enriquecer esta história nossa, minha e de vocês.

Eu me pergunto: O que seria hoje de mim se eu negasse a história, a minha história, se negasse a existência ou as experiências resilientes dos meus antepassados? Um navio sem leme, que se move segundo as arbitrariedades do vento e da maré, forças poderosas frente as quais não teríamos forma de resistir.

Precisamente, não conhecer A HISTÓRIA é como não conhecer os nossos avós, aos nossos pais, assim de absurdo pode ser. É quase um ato de negação das nossas origens, trazendo com isto, a maldição de Sísifo, onde como o personagem mítico, arrastamos sofridamente e a duras penas nosso avanço. Mas em dado momento tudo se desmorona e somos obrigados a começar uma vez mais, expondo assim, todos os problemas de desigualdade e violência que nos assolam como sociedade, pelo simples fato de não conhecer o passado, expondo-nos a essas forças manipuladoras e arbitrárias que nos convencem de falsas ilusões, como o cantar das sereias.

Por que acontece isto? Porque ignoramos nossa história e quando não, relutamos frente a sua presença.

A história nos ajuda a discernir, a decidir com liberdade, é educação para a vida, formação para a vida, pois nos ajuda a valorizar a experiência de outros para que as pessoas possam ser mais generosas, mais solidárias, para termos um país mais justo e menos desigual.

Meu orientador de mestrado e doutorado na UNICAMP, o professor Leandro Karnal, uma vez disse: a história está aí para nos ensinar, mas só poderemos aprender desde que a gente queira. A história apresenta os efeitos gerados pela violência, pela desigualdade, pelas injustiças, pelos regimes ditatoriais e seus apologistas, pelas guerras. Mas depende de nós querermos saber e principalmente apreender para dizer basta, nunca mais. Para aprender com nossos erros e não cometê-los de novo.

Shakespeare, no século XVII, já tinha muito claro isto. Ele escreveu no ato III, da segunda parte da sua obra Henrique IV:

“Há uma história na vida de todos os homens,

Descobrindo a natureza dos tempos passados,

Aqueles que, observados, permitem a um homem comentar,

Com mira certa, sobre o rumo principal das coisas

Que ainda não vieram a nascer, mas que em suas sementes

E débeis inícios já se encontram guardadas”

Formandos do Colégio Uirapuru, como última lição de casa eu peço: não ignorem nossa história, aprendamos dela, queiram, por intermédio dela, mudar nossa rua, nosso bairro, nossa sociedade, nosso país. Lembremo-nos de Vitor Hugo e os miseráveis. Vocês pertencem a essa classe social que pode realizar estas transformações.  Queiram como futuros carvalhos frondosos, oferecer sombra a seus netos, para que eles possam viver em um país melhor, onde a pátria seja o outro.

Tudo tem seu tempo e sua hora. É nossa hora de dizer adeus, talvez seja nosso tempo de iniciarmos uma nova história.

Viva o Brasil e seus estudantes.

Muito obrigado.

Eduardo Torres"

 

O Colégio Uirapuru parabeniza todos os alunos e deseja uma nova etapa cheia de realização e concretização de sonhos. 

 Parabéns Formandos 2019. 

 

Confira alguns momentos do Encerramento do Ensino Médio e High School: