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O tema está baseado na premissa de que não basta adquirir conhecimentos, é preciso transformá-los em valores e vivências reais. Bons exemplos podem nortear cidadãos para que vivam o que aprenderam. Por isso, é importante destacar o protagonismo de cada um: família, professores e alunos. Cada um assume o papel de aprendente autônomo, a partir de reflexões sobre experiências de aprendizagem. Essas experiências se concentram em observar, refletir, formalizar conceitos e valores e, assim, aplica-los na vida, no cotidiano.
Quando dizemos que “vivemos o que aprendemos”, queremos dizer que colocamos em prática, isto é, em nosso fazer cotidiano tudo aquilo que realmente aprendemos, seja pelo exemplo, pela compreensão de um conceito, pela reflexão realizada. É nesse movimento que vamos nos constituindo, sendo autores de nossa própria história, numa relação sempre dialógica com o conhecimento e com as pessoas com as quais convivemos.
Aprender e ensinar nos movimentos de autoria é criar espaços para que o educando empreenda a construção de si, rompendo com o reducionismo de currículos lineares, da visão disciplinar dos saberes, apontando solução de problemas às questões do cotidiano.
Tendo a ideia da escola como espaço de emancipação social, cenário de socialização na mudança, é preciso pensar no papel do professor, responsável direto pela aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, e no papel dos outros profissionais, responsáveis pelo suporte às ações docentes. É preciso que o professor se sinta autor de sua prática pedagógica, consciente do papel mediador, formulador de problemas, mobilizador de inteligências múltiplas/coletivas na experiência do conhecimento.
Para pensarmos teoricamente sobre este tema vamos pensar um pouco sobre o que estamos entendendo por conhecimento e por aprendizagem.
Podemos dizer que a finalidade do conhecimento está relacionada à formação da consciência, do caráter e da cidadania do sujeito. Esta perspectiva só tem sentido quando possibilita ao sujeito compreender, usufruir ou transformar a realidade. Na verdade, o conhecimento precisa possibilitar a transformação/modificação do sujeito para que possa ocorrer a transformação da realidade, partindo do individual para o coletivo.
O conhecimento, numa abordagem tradicional, atribui à inteligência a capacidade de acumular e armazenar informações, das mais simples para as mais complexas. Há destaque ao caráter cumulativo do conhecimento adquirido por transmissão, uma vez que o homem é concebido como receptor passivo, até que adquira as informações necessárias para a vida em sociedade. Numa abordagem comportamentalista, o conhecimento – informação transmitida – é resultado direto da experiência planejada, considerando o controle do comportamento observável, sendo o homem consequência de influências do meio ambiente, produto de um processo evolutivo. Na abordagem cognitivista, na qual o homem é um sistema aberto, “em reestruturações sucessivas, em busca de um estágio final nunca alcançado por completo” (MIZUKAMI, 2003, p. 60), o conhecimento é construção contínua. A aquisição do conhecimento se dá em duas fases: exógena e endógena. Na primeira fase, o conhecimento se dá pela constatação e pela imitação; na segunda pressupõe uma abstração reflexiva ou empírica, por parte do sujeito, implicando numa reorganização mental a partir do próprio objeto. Na abordagem sócio-cultural, o homem “se constrói e chega a ser sujeito na medida em que, integrado ao seu contexto, reflete sobre ele e com ele se compromete, tomando consciência de sua historicidade” (MIZUKAMI, 2003, p. 90). O conhecimento é, então, resultado de procedimentos desenvolvidos cultural e socialmente. Aqui, conhecer é “construir significados (“produto”), através do estabelecimento de relações (“processo”) no sujeito, entre as representações mentais (“matéria-prima”) que visam dar conta das diferentes relações constituintes do objeto, ou das diferentes relações do objeto de conhecimento com outro(s)” (VASCONCELLOS, 1999, p. 39).
Percebemos a necessidade da mudança de paradigma na função social da escola, que precisa deixar de ser mera transmissora de conhecimentos, materializada na racionalidade técnica, para ser um espaço de construção de conhecimentos, não mais tomados como verdades absolutas, mas em constante transformação e aperfeiçoamento, materializado na racionalidade prática, que lida com o inesperado, com o imprevisível, com sujeitos também em constante transformação. Criar condições para que os alunos desenvolvam suas capacidades e aprendam os conhecimentos necessários para construir instrumentos de compreensão da realidade e de participação em relações sociais, políticas e culturais diversificadas e, cada vez mais, amplas tem sido o objetivo a ser alcançado pelas instituições educativas.
Entendemos que para aprender é preciso adquirir significado, sentido, por isso é papel da escola “dar significado”, “re-olhar” para o conhecimento.
Se considerarmos uma abordagem mais tradicional, a aprendizagem está relacionada à instrução, a um modelo pedagógico que privilegia o verbalismo e a memorização, não levando em conta as diferenças individuais, nem os aspectos ligados à reflexão. O que se valoriza é a quantidade de conceitos e informações transmitidos pela ação docente pautada na racionalidade técnica.
Numa abordagem mais humanista a ênfase está no papel desempenhado pelo sujeito que aprende e nas relações interpessoais que mediam a aprendizagem dos conceitos. Há envolvimento pessoal entre o sujeito que aprende e o sujeito que ensina; há preocupação com os processos de pensamento e o desenvolvimento de habilidades, viabilizados pela ação docente pautada na racionalidade prática.
A vida escolar precisa possibilitar aos alunos a vivência de diferentes experiências, por meio de ‘simulações para poderem aprender e mostrar o que aprenderam’. É por isso que o conhecimento trabalhado em sala de aula não pode ter um fim em si mesmo. Ele só tem “sentido quando possibilita o compreender, o usufruir ou o transformar a realidade” (VASCONCELLOS, 1999, p. 34). A ideia que subjaz é a do conhecimento que faz com que o sujeito se transforme e, pela sua transformação, seja capaz de transformar/intervir na realidade.
Nesse sentido, precisamos pensar nas ações educativas orientadas para a ação, de modo que os alunos se tornem protagonistas de suas vidas, que tenham experiências concretas, que observem e reflitam, que construam conceitos e que os apliquem em novas situações.
Acreditamos que o tema “Vivemos o que aprendemos” atende a necessidade de inspirar novas atitudes comportamentais, num trabalho coparticipativo, colaborativo e co-responsável entre família, colégio e alunos.
Referências:
MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 2003, 13ª edição. 
VASCONCELLOS, Celso dos S. Construção do conhecimento em sala de aula. 8ª edição. São Paulo: Libertad, 1999.